
Coloco algumas músicas antes de dormir,
para que elas afastem os terríveis pesadelos...
Deito-me com um terrível pesar no meu peito, e não consigo descobrir de onde vem tudo isso.
Acordo no meio da noite, e percebo que o dia está claro lá fora. Essas incoerências nos sonhos já não me impressionam mais.
Quando abro minha porta, percebo que o dia está maravilhosamente claro e bonito, com sons criando uma perfeita harmonia, e mesmo assim eu ainda estava triste e nostálgico.
De repente olho para o fundo do quintal, e lá estava uma pequena cerca, de tijolos maltratados pelo tempo, coberto em partes com cercas vivas, e lá dentro uma névoa que me impedia de ver nitidamente além da cerca.
Algo me chamava para dentro, como se meu medo guiasse-me para aquele lugar cinzento.
Quando adentro o tal jardim, sinto todo o pesar dos meus sentimentos me envolvendo, como se realmente eu tivesse dentro do meu peito pesado, e se alguém tivesse comigo naquele momento, sentiria tudo o que sinto o tempo todo, toda a angústia, nostalgia, frio e tristeza.
Uma emoção terrível toma conta de mim, quando percebo que todas as plantas do jardim estavam secas, e todo o chão coberto de folhas quebradiças e úmidas.
Havia um poço antigo, mas estava seco, e sua alavanca quebrada. Eu não conseguia ver o céu daquele lugar.
Aos poucos comecei a reconhecer cada planta seca, cada árvore morta e cada folha no chão, como pedaços da minha vida, amigos, sonhos, planos, conquistas.
O poço tinha uma pequena peça de madeira rústica, com o entalhe da palavra "Esperança".
Recostei-me numa árvore, cujos galhos subiam ao céu além da neblina, sem que eu pudesse ver até onde chegavam. Porém ao encostar-me, parte da árvore se quebrou como se estivesse apodrecida pela umidade e pelo tempo, e imediatamente ouvi um sussurro, dizendo-me ..."essa é sua "força" ..."
Começa a chover torrencialmente no meu jardim. Os pingos eram tão fortes, que me fizeram cair de joelhos para proteger meu rosto.
Quanto mais eu chorava, mais água caía do céu, e então percebi que essas eram as lágrimas contidas, aquelas que não caem dos meus olhos, as que guardo num lugar secreto.
A chuva vai ficando mais amena, eu mesmo vou ficando mais calmo. Tudo que eu queria naquele momento aconteceu:
Senti uma mão puxando-me...eis que vejo um anjo, vestida de branco e caminhando pelo jardim como se nada pudesse afetá-la.
Levou-me para um local no jardim, onde um muro tão alto quando o céu fazia os fundos daquele sinistro lugar.
Ela me mostra uma pequena rosa branca, brilhando como se emanasse luz própria, em meio a todas as folhas e restos de folhagens mortas daquele chão.
Meu anjo apenas disse-me: - Você precisa cuidar dessa rosa. Vá até o poço e traga água pura e fresca para que ela cresça e fique ainda mais bela.
Eu corro até o poço quebrado, mas agora, para minha surpresa, ele está em melhores condições que antes, ainda surrado, mas aos poucos pude girar a alavanca e trazer um pouco de água para a superfície.
Corro para meu destino, e encontro apenas a Rosa...o anjo desapareceu.
Olho para a Rosa, contemplo seu brilho...rego com cuidado, e depois...
Eu acordo.