quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

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Um Homem, Deus, uma Dúvida e uma Verdade.


O Vilarejo das Pedras Sagradas


O povo do vilarejo das Pedras Sagradas vivia em completa harmonia com a natureza.

Seus costumes eram baseados em ensinamentos antigos e de natureza religiosa, assistidos e orientados pelos sumos sacerdotes, praticados há inúmeras gerações.

O solo do vilarejo era abastado de pedras maravilhosas, de cores e formatos variados que encantavam a todos, ao passo que pouco favorecia a agricultura, obrigando aquelas pessoas a dependerem de transações comerciais com outras vilas para poderem prover o sustento de suas famílias.

Assim, há muitos anos os sacerdotes consultaram os deuses, pedindo consentimento para comercializar as pedras encontradas, visto que eram as únicas coisas naquele solo que poderiam ter algum valor comercial para poderem adquirir todo o restante que lhes faltava.

Uma condição foi imposta para que a exploração das pedras acontecesse com a aprovação dos deuses: todas as outras pedras movidas do solo que não seriam comercializadas deveriam ser levadas à montanha mais alta para que pudessem ser usadas na construção de templos em honra aos deuses.

Aconteceu assim durante muito tempo, e o trabalho daqueles homens que subiam a montanha carregando pedras em sacos sobre suas costas, era tido como o mais honroso entre todos os trabalhos do vilarejo.

Ao longo do tempo, esse labor era tão respeitado, que os homens que empreendiam esta tarefa eram tratados como quase como nobres naquele povoado.


O Homem Bom


Khalamadeu era um homem muito forte. Tinha esposa e três filhos, e era reconhecido com um dos homens mais tementes a Deus. Destacava-se entre aqueles que levavam os sacos de pedra para o alto da montanha.

Além de trabalhar no transporte das pedras, Khalamadeu também ia até a cidade para comercializar as pedras preciosas, e logo começou a ser visto como uma espécie de homem santo, já que sempre prestava-se a aconselhar todos que lhe procuravam, sempre com palavras belas e rosto sereno.

Sua fé nos deuses parecia inabalável e punha-se a ajudar a todos que pudesse de todas as maneiras possíveis.

Era desapegado de quase todas as coisas materiais, porém sua casa prosperava e aos poucos tornou-se a mais bela do vilarejo, em virtude de presentes que eram sempre oferecidos, embora ele fosse sempre reticente em aceitar

O povo do vilarejo começou a notar as relativas melhorias na vida de Khalamadeu e sua família, mas não o invejavam e sim, o tinham como exemplo das bênçãos concedidas pelos deuses adorados aos homens de bem.


Uma dúvida no Paraíso


Certo dia, entre os Céus e a Terra, os deuses observavam aquele vilarejo tão cheio de fé e boas pessoas.

Palestravam sobre como era perfeita sua criação, quando era notória a paz que gozava um povo que honrava os deuses.

Quando os supremos senhores estavam para recolher-se e desfrutar dos utópicos prazeres do paraíso, um anjo se aproxima do deus ancião dizendo-lhe:

- A fé que os homens têm em ti não é verdadeira meu senhor.

- Explica-te isto que dizes, servo. – Diz o ancião intrigado.

- Veja, senhor nosso pai: é como uma barganha. – Explica o anjo. - Eles fazem conforme tu ditas e tem retribuições divinas; se não, experimentam tormentas em suas vidas.

Incomodado com as indagações daquele anjo de asas negras, argumentou:

- Mas é assim que deve ser a justiça divina...eles tem livre arbítrio e podem escolher. – Explicou o ancião.

Como quem já soubesse antecipadamente o que diria o senhor, o anjo prontamente continuou a falar:

- Mas somente alguns tolos e desgraçados escolherão não louvá-lo, se sempre as providencias forem dessa maneira, meu senhor.

- Tu destes o maior presente a estes “homens”: a capacidade de pensar.

- Não creio que evoluirão tanto, sendo tratados conforme sua justiça divina.

O grande deus, um tanto quanto enfurecido dirige-se ao anjo como quem quisesse que se calasse, e próximas palavras proferidas pareciam tentar impor sua autoridade:

- Tu vês suas asas escuras que ostentas? Isso é porque és o único servo que me questiona. Está perdendo aos poucos tua graça.

- Aliás, nem entendo porque tens esses pensamentos. Diga-me? De onde inspira-se?

O Anjo postou-se ereto fitando o ancião por breve tempo e segue dizendo:

- Passei muito tempo junto aos homens, e pude aprender com eles algo que eles não usam muito pai: O Pensar.

- Ainda pensarei sobre o que farei a teu respeito, escravo. - Disse o senhor ainda atordoado com os argumentos, como quem esperasse finalizar o diálogo.

Por fim, o anjo fala com os olhos para o chão, como quem temesse alguma reação hostil:

- Sabe o que seria verdadeiro, Pai? Se mesmo na tormenta os homens te fossem fiéis; que ainda que caminhem em sombras e pisem em espinhos, te honrem e glorifiquem a ti.

- Que se eventualmente encontrarem-se em meio à tempestade busquem em ti abrigo e que possam te agradecer por enviar a chuva forte, acreditando que sua vontade deve ser feita e aceita de forma absoluta.

E eu digo-te ainda, sou teu filho, não teu escravo.

O anjo retirou-se rapidamente, antes de qualquer palavra de deus.

Algum tempo passou-se no paraíso, porém, tudo aquilo foi dito pelo anjo, tal como erva daninha em um belo jardim, invadia a todo tempo os pensamentos do Rei dos céus.

Incomodou-lhe profundamente alguém lhe questionar.

Incomodou-lhe ainda mais aquilo tudo poder fazer sentido, e como torturava-lhe saber que como criador nunca havia ocorrido uma outra maneira de ver as coisas, de maneira diferente de como havia pensado na criação.

Depois de refletir muito, resolveu levar o assunto junto aos deuses menores em sua hierarquia celestial, mas sua decisão já estava tomada. Iria colocar à prova, a fé de algum homem na terra para poder afirmar sua suprema sabedoria, bem como sua grandeza perante a tudo e a todos que existem entre os céus e terra.


Outra vez o Homem bom


Foi Khalamadeu o por Deus para honrar sua palavra. Era sem dúvida o homem que mais aproximava-se de seguir todas as suas Leis outorgadas nas escrituras.

Já havia definido todas as provações daquele humilde homem bondoso que exalava complacência e calma, e ajudava a todos que podia.

Estava certo de que não deveria intervir de maneira alguma, em como seu escolhido haveria de agir face às intempéries e provações que viriam a acometer-lhe.

Por um momento o grande Deus sentiu-se ansioso, pois em seu paraíso eterno nada que lhe estimula-se tanto interesse acontecia.

A sensação de poder manipular os homens na terra começou a instigar desejos e pensamentos.

Algum tempo se passou no mundo dos homens, e o vilarejo belo e harmonioso continuava sendo um maravilhoso lar para o povo que lá vivia.

Belos templos haviam sido levantados no alto da montanha, mas o trabalho nunca estaria acabado, pois os deuses eram generosos e seriam sempre glorificados com os mais belos monumentos. Pensamento este, compartilhado por todos que tinham como lar aquela vila abençoada.


A Mão Esquerda de Deus


Nos céus, o Rei dos reis, observava Khalamadeu carregar algumas pedras em sacos de couro e em seguida apoiá-los às costas, como faziam há muito tempo, sem utilizar nenhuma força animal ou ferramenta para auxiliar a empreitada, como ditavam os sacerdotes, que acreditavam que tal empenho purificava corpo e alma.

A caminhada já fazia Khalamadeu sentir o corpo fatigado, mas sem descanso continuava, quando era colocada sem que pudesse ver, pelas mãos do próprio Deus, uma pedra a mais em suas costas.

Mais algum tempo, mais algumas pedras faziam pesar mais sua carga, fazendo o homem curva-se e sentir dores em todo o corpo.

Quando chegou ao destino, estava exausto e preocupado, pois nunca sentiu sua tarefa exigir-lhe tanto esforço.

Ao descarregar as pedras, pensou que tinham mais do que lembrava ter colocado, justificando seu cansaço e deixando-o um tanto confuso, porém não refletiu por muito tempo e voltou ao vilarejo.

Em suas próximas caminhadas acontecia sempre o mesmo, e cada vez mais exausto e com dores ficava, o que o levou a pensar, que os anos vividos já o faziam fraco, mais intrigava-lhe o fato de parecer que no topo da montanha sempre havia mais pedras no saco do que havia coletado.

Deus sentia o júbilo em perceber que a fé daquele homem continuava forte, ainda com o sofrimento causado pelo peso das pedras que colocava em seu fardo, cada vez mais em cada caminhada.

Pensou que devia elevar os obstáculos na vida do seu escolhido, para que pudesse realmente saber o quanto era amado e adorado.

No templo do vilarejo, Khalamadeu rezava pedindo mais forças para continuar realizando o trabalho, e pedia também sempre por sua família e demais moradores.


A dor que transforma


Algumas luas se passaram, quando o filho mais novo de Khakamadeu adoeceu. Algo praticamente inexistente na vila; fato que o fez questionar pela primeira vez e por um momento, a bondade divina.

Logo correu à cidade para encontrar algumas ervas, e surpreendeu-se quando pediram uma paga pelo tratamento, pois sempre era recebido e presenteado, e justamente naquele dia nem sua bolsa havia levado, tendo que voltar para casa sem os remédios.

Conseguiu alguma gordura de porco para levar ao filho enfermo e planejava voltaria no dia seguinte à cidade parar comprar as ervas de tratamento para seu menino.

Após algum tempo o filho continuava adoecido, mas era tempo de levar pedras, e não desapontaria os deuses. Pensou que talvez estivesse sendo punido por curvar-se com o peso das pedras e assim foi pela montanha procurando ignorar o sofrimento da caminhada, antes tão prazeroso.

No caminho de volta, uma tempestade terrível o acometeu, fazendo com que demorasse mais em seu regresso.

Pensando no filho, resolver correr e tropeçou em uma raiz que nunca antes havia visto, e teve ferimentos graves na perna que praticamente o impediram de andar.

Rezou enquanto praticamente se arrastava, levando o dobro do tempo de costume, com dores terríveis, fome e angústia, mas não parava de rezar e pedir ajuda.

Ao chegar em casa deparou-se com a piora do filho, que parecia estar à beira da morte.

Precisava de um curandeiro da cidade, mas não conseguia mais andar.

Sua esposa pediu ajuda de casa em casa, e assustou-se ao ter a porta fechada em todas elas, ouvindo as pessoas lhe dizerem que não ajudariam os abastados do vilarejo, que deviam estar roubando e por isso sendo castigados com a pestilência que arrebatava sua família.

De súbito a mulher de Khalamadeu resolveu ir junto com o filho mais velho, porém ainda bem menino, até a cidade.

Partiu correndo em desespero.

Khalamadeu chorava, e já não rezava tanto quanto questionava tudo o que estava acontecendo.

No caminho para a cidade, a esposa de Khalamadeu foi surpreendida por três homens de aparência rude e mal vestidos, cheirando à podridão.

Mesmo implorando, foi brutalmente violentada pelos homens e assistiu seu filho ser espancado quando reagiu em tentativa de defender a mãe.

Ela não conseguiria andar se não fosse pela necessidade de buscar o curandeiro e seguiu chorando com o filho mais velho cambaleando ao seu lado.

Quando tomou conhecimento do ocorrido, ainda atordoado com a preocupação com aquele seu filho que mal respirava, Khalamadeu realmente começou a sentir as tormentas terríveis às quais fora destinado pelas mãos do mesmo deus que outrora lhe era tão generoso.

O filho enfermo falecera, a despeito de todos os esforços e sacrifícios, e o homem questionou Deus pela segunda vez.

O trabalho das pedras não foi feito por ele durante algum tempo.


Mais dor, e a queda do homem bom


A família do pobre homem sofria agora o desprezo da aldeia e privações de toda sorte, posto que as seqüelas na perna de Khalamadeu o deixaram convalescido por longo tempo.

No peito do nobre escolhido um sentimento terrível desconhecido até então, que crescia cada vez mais.

Já não conseguia facilmente o alimento antes farto. Nem cuidava mais de suas vestes, nem de sua aparência, e seus olhos já perdiam aos poucos o brilho.

Seu rosto não era mais sereno, e seus pensamentos não eram mais repletos de certezas e sim, de dúvidas.

As dúvidas tomaram quase todo seu ser, e como não havia respostas, aquele homem cruelmente punido, fora preenchido de vazio sentiu-se e assombrado por fantasmas que exigiam repostas.

Às vezes rezava, mas suas palavras se perdiam em pensamentos que poderiam resumir-se em: Pai, por que não me ouve? Por que ignora-me? Por que abandou-me? Tu existes?

Suas preces não eram mais puras, e sim tentativas de barganha com os adorados deuses, com promessas em troca de uma vida menos sofrida, e suas orações quase sempre eram palavras de ódio proferidas aos céus, mais densas e odiosas a cada dor sentida em sua vida.


O homem (mau)


Quem procurava Khalamadeu a partir de então, não ouvia belas palavras, e sim gritos. Suas costas não carregavam pedras e sim objetos que não eram seus. E suas mãos não estavam mais abertas e dispostas a acarinhar, e sim ocupadas carregando um punhal.

Agora não era mais homem santo, e sim um temido bandido e mercenário.

A dor não o assustava, nem medo tinha, e nunca mais chorou.

Nunca mais sorriu.

Por vezes jurou ter visto um anjo por perto, mas não era belo e reluzente como diziam e não eram brancas as asas como havia aprendido, mas mesmo com tantas dúvidas, sentia-se mais seguro quando avistava aquela angustiante presença.

Sua efêmera paz encontrava-se no caos e não na harmonia antes vivenciada, que parecia agora uma mentira tão verdadeira, e que dele foi tirada cruelmente a partir do momento que pedras fraquejaram suas pernas pela primeira vez.


Deus e sua coleção de homems


Deus do céu, por tempo estava tomado por um frenesi observando Khalamadeu por tantos anos, que apenas após ouvir aquele escolhido questionando sua própria existência e bondade, deu-se conta de que realmente aquele anjo que incitou-lhe a provar sua criação estava certo, e de seus olhos caíam lagrimas que lavaram a Terra por luas e luas seguidas

Decidiu descer do trono pela primeira vez em muito tempo e com certa esperança de que sua obra não era falha, foi procurar Khalamadeu para que pudesse ouvir daquele homem o que tinha no âmago de sua alma em cada tormenta que encontrou no caminho.


A verdade


- Ei homem, tu deves estar amaldiçoado para encontrar-me agora. - Disse Khalamadeu

- Estou falando contigo velho! Dá-me tudo que tens contigo ou tiro-te a vida, e te enterro sob pedras, como faço àqueles que resistem ou reagem à minha investida.

Um velho homem virou-se e uma luz parecia envolver todo seu corpo. Seu rosto brilhava intensa e estranhamente.

Khalamadeu não disse mais nada por um tempo e aquele homem começou a falar calmamente:

Filho, ouve-me com atenção.

- Eu o tive sob meus olhos por toda sua vida e antes dela.

- Sou Deus, teu pai e teu criador.

- Tu foste meu escolhido para provar a fé dos homens em mim, porque tu foste em toda tua vida e em todos teus passos, bondoso e complacente de alma e coração.

- Mas entristeceu-me, quando ao experimentar as dores do mundo, tu perdeste a fé e prestou-se a praguejar aos céus, quando eu esperava que tu confiasses em mim, e resignasse entendendo que tua vida seria honrar minha vontade, e viesses a mim em prece apenas para agradecer e pedir forças para estar em pé para tudo mais que pudesse vir a arrebatar-te, assim como a tua casa.

- Tu serias aquele que provaria a perfeição da criação e da justiça divina, e como és livre para escolher teu caminho, escolheria sempre aquele que provaria tua fé e confiança em mim, teu senhor e teu abrigo.

- Estava eu, certo de que cada dor quem enfrentasse o deixaria mais forte e purificaria tua alma se pudesse ser posta a prova toda tua confiança em mim, teu Senhor.

- Diz-me à razão de ter escolhido o caminho escuro e ter transformado-se nesse homem odioso que és agora.

Khalamadeu ouvia tudo e fitava aquele Homem que dizia ser Deus, e por alguma razão, disso ele tinha certeza.

Sabia que aquele era o tão nobre Senhor de Tudo e lágrimas corriam dos seus olhos enquanto vinha em seu pensamento toda a sua vida, e aquele momento que esteve perante o homem que lhe falava parecia não ter fim, tanto quanto nem se dava conta de quanto tempo havia passado.

Tal como saísse de um transe, tomou consciência e assumiu que era sua vez de tomar a palavra, e não sabia o que deveria ser dito, embora tivesse ensaiando em seus pensamentos um momento como esse durante muito tempo.

Precisava pensar, mas não havia tempo.

Decidiu assim, deixar as os sentimentos e reflexões falarem por si, pois assim diria o que vinha do âmago e apenas dessa maneira seria puro e verdadeiro em sua palestra perante o Deus que estava em carne de homem bem a sua frente.

Assim, pôs-se a dar vazão às palavras que lhe vinham da alma.

- Se és meu criador, tudo que sou e que pude ver, sentir e tocar são graças tuas.

- A vida que tive até hoje devo a ti, bem como minha própria consciência acerca de tudo que existe e acerca de mim mesmo perante a toda criação que pude vislumbrar nesse tempo que estive aqui.

- Sendo assim estou inclinado a pensar que devo ser grato, mesmo que eu não tenha escolhido estar vivo, pois certamente seria impossível uma vez que para escolher teria que antes, existir.

- Digo-te também que se imaginavas tornar-me melhor com tua mão dificultando meu caminho, equivocou-se ao menos ao meu respeito.

- Se fosse outro homem por ti escolhido, talvez atenderia este, tua expectativa, mas sobre mim creio que enganou-se.

- Eu era bom. Pelo menos aos olhos do que todos e tu mesmo pensas sobre bondade.

- Mas os espinhos que me perfuraram causaram muita dor e sim, hoje sou mais forte.

- Mas as cicatrizem ainda doem, e sangram.

- E as dores que senti moldaram-me e hoje sou pior, muito pior e ficarei ainda mais. Certamente serei um monstro mais terrível à medida que eu encontre pedras e pragas em minha existência.

Uma pausa em sua fala fez Deus absorver tudo que estava ouvindo daquele homem que agora parecia uma criatura que transparecia sabedoria.

Khalamadeu continuou...

- Agora posso dizer que percebido tudo isto, logicamente entendo que o meu Pensar é obra tua também. E isto me faz perceber a mim mesmo e perceber o mundo de maneira única.

- E o que posso dizer sobre o que sinto nesse momento, sendo verdadeiro como imagino que queiras que eu seja para contigo, digo que sinto dor.

- Sinto dor e ódio, e vazio.

- Sinto mais coisas que não sei palavras que definam, mas não me fazem bem, e me atormentam desde o momento em que duvidei de Ti Meu Deus.

- Se eu pudesse atiraria em ti todas as pedras que encontrei.

- Apenas o fato de saber que tu existes, me faz calar um pouco das vozes que clamam por respostas, e apenas uma certeza toma forma agora: Tu és culpado e responsável por mim e por toda tua obra.

- És tu criador, responsável por tua criatura.

- E meu próprio discernimento e capacidade de pensar, obra tua que toma vida em mim, faz-me voltar conscientemente contra ti, Ó Deus cruel.

- Se a cria volta contra o criador, o que podes concluir meu Pai, sobre a perfeição que imaginava ser tua obra?

- O que dirias sobre tu mesmo? Poderia um ser perfeito criar algo imperfeito?

***

Deus virou às costas por um tempo, como se pusesse a refletir e ao voltar os olhos para Khalamadeu, disse suavemente:

- Quando percebi que não estavas agindo tal como eu esperava que fizesses, pensei ter feito a escolha errada ao ser você meu filho a carregar o fardo cujo peso eu mesmo dosei.

- Agora reconheço em ti a única escolha que poderia mostrar-me a verdade.

- Vá e viva agora, conforme tua obra.

- Olharei dos céus ainda, o teu caminho, mas não porei minhas mãos em tua vida.

- Espero-te para que em algum tempo estejas comigo

- Adeus, meu filho,

Com o vento que movimentava as árvores o Senhor de Tudo se foi e uma chuva leve começou a cair.

Khalamadeu ficou um tempo ali e ajoelhou-se, mas não para rezar e sim para tocar a terra e apanhar o punhal que caíra antes, e apesar de não sentir mais tanto ódio, decidiu levá-lo consigo.

Nos céus, todos os deuses e anjos que aguardavam o Grande Rei, puderam apenas ouvir, e nada ver, como se fosse uma voz que viesse de si mesmos onde em uníssono, repetiram o que a voz proclamava:

- Nada fazeis na terra para intervir entre homens, senão por seus merecimentos.

- Cuidai para que tudo aconteça como deve acontecer e observai, dando a cada homem conforme aquilo que fizerem, seja bem ou mal, mas que seja verdadeiro.

Deus transformou-se em energia universal e uniu-se ao cosmo infinito.

O Anjo de asas escuras que acordou o fantasma das dúvidas no próprio criador nunca mais foi visto nos Céus.

Fim.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

O Vampiro da Tristeza



Sou vampiro sedento,
entre sombras da noite,
que se arrasta na danação
sem forma, sem beleza...

Sou das sombras,
sou pálido, sou frio...
sou a face do vazio...

Qual é minha proeza?
Digo-te com gentilezas...

Teu sangue me enoja.
Alimento-me de tristeza.
Pelas mãos do próprio Deus...
fui amaldiçoado com frieza.

Ergui-me perante o Criador,
e questionei sua falsa nobreza,
olvidando de seus filhos...
dor, fome, angústia, avareza.

Em meus olhos, dúvidas.
Nos olhos do Pai, fúria...
não admitiu minha franqueza.

Sou filho da Luz,
na escuridão lançado...
postar-me em pé,
foi meu único pecado.

Confrontei minha fé,
apos uma vida ajoelhado.
O rancor anda ao meu lado...
fui, pelo ódio, abraçado.

tenho a força de um filho desprezado...
e de mil almas condenadas,
e daqueles ora esquecidos,
os primeiros Anjos Caídos...

Mas em verdade, Pai, digo-te...
existe força na tristeza.
Me verás como um titã,
farei-te uma supresa.

Pintarei teu céu de negro,
ceifarei tua pureza...
e com meu sangue,
provarei o real tamanho da tua grandeza.

Hugo Roberto Bher
#O Poeta do Escuro





quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Lágrima Vermelha



Eu tentei... eu juro!
até criei um muro...
em volta do peito,
que agora desfeito,

deixa a dor entrar...
Estou ficando sem ar.
Eu deixaria de sentir...
aceitaria nunca sorrir,

apenas para que a saudade,
não venha me sufocar.
Sou apenas metade,
não quero mais amar...

Pois se voltar a doer...
essa alma ferida,
condenada e caída,
eu metade, iria morrer.

sou cicatriz eterna...
que sangra, que arde,
quando teu rosto eu vejo,
nos sonhos ou pensamentos.

Sou metade eu sei,
a outra metade, se foi.
És tu minha parte,
e hoje mesmo lembrei...

NUNCA MAIS,
meu amor, como dói
nunca mais a verei...

Com uma lágrima de sangue
tua foto eu pintei.


Hugo Roberto Bher
#O Poeta do Escuro

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O Pesar do Meu Pensar

As respostas geraraM dúvidas,
e as dúvidas motivaram minha busca.

A busca trouxe-me mais dúvidas,
e estas, fizeram-mE cético.

O ceticiscmo me trouxe conhecimento,
e o conhecimento me trouxe algum discernimento,
e eSte algumas respostas.

Essas respostAs trouxeram-me decepções.

Com tantas decepções me tornei frio,
e esta frieza me trouxe soLidão.

A solidão me trouxe percepção acerca de mim.

E isto trouxe-me a loucura...
que se misturou com a tristeza.

A tristeza me trouxe percepção acerca do mundo.

E a percepção do mundo,
me transformou em um monstro,
louco atormentado, triste,
e afogado em angustiantes dúVidAs.


Aqueles que Pensam e buscam,
encontram o tormento de carregAr a maIs pesada das cruzes.

Hugo Roberto Bher.

domingo, 16 de outubro de 2011

O Valor de Uma Alma Escura


No meio do caminho,
que a noite assim perfaz,
ao encontro do dia, sagaz
estava eu, em meu ninho

buscando no leito, paz
mas em sonho, desperto
e havia alguém perto
com aparência austera

bem aparentado era
e afagando seu terno,
um olhar assim paterno,
disse-me que eu o conhecia.

Que era o Homem de Baixo
e o seu nome não diria.
Seu rosto abrandou meu medo
mas de fato, sim eu sabia...
de súbito entendi o enredo,
O diabo minh'alma queria.

Ele, educado, ora arrogante
Eu com meu peito arfante
Em suas mãos, uma quantia
Em meu rosto, agonia

Disse ele: escolha não tem
tua alma, para baixo, não volto sem.
Eu, sem ter a quem suplicar
Pois nunca prestei-me a rezar

Barganhei a eternidade amaldiçoada.
Peguei da sua mão, a maldita paga.
E para selar o pacto, um beijo,
meu triste fim agora prevejo.

Então, assim que sentiu meu gosto,
o horror extremo tomou seu rosto.
Do que ele viu, esperava o oposto.
Tão logo, desfez o antes proposto.

Diz-me então, por fim:
Donde vem escuridão assim?
Tua alma é podre,
Até mesmo para mim.

Hugo Roberto Bher
#O Poeta do Escuro

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Versos para meu deus

Tu desfaz,
do tempo que me faz,
clamar por você.

Não tenho,
tempo para desdenho,
olhai meu caminho.

Estou vazio,
tanto tempo no frio,
força já perdi.

Olhos fundos,
entre vários mundos
não existe luz.

Meus versos,
em outros universos,
não seriam dispersos...
nem tão perversos...

tampouco, em dores imersos.

Hugo Roberto Bher
#O Poeta do Escuro

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Felicidade

Felicidade? não sei se conheço
Não posso pagar o teu preço
Estou do outro lado do rio,
atrás de mim o imenso vazio.

Meu rosto sem sorriso,
é imune às suas marcas
caminho contra o paraíso,
peito ferido com estacas.

Mas aprendi a viver assim
a dor, muitas coisas contrói
rios de sangue em mim...
não imaginas o quanto dói

Se sou eu amaldiçoado
queria conhecer a razão...
se já nasci condenado
coma de vez meu coração.

Eu já acendi duas velas,
com apenas um único pedido
ofereci por uma bagatela
a alma desse corpo dolorido
para poder sair da minha cela...
se algo assim maior existe
por um dia, me permita não ser triste.


Hugo Roberto Bher
#O Poeta do Escuro

terça-feira, 23 de agosto de 2011

A Vela Que Se Apagou



Se meus olhos não suportam a luz,
É porque no escuro sempre viveram...
e a visão do caminho, que à ela conduz,
os deuses a eles, nunca concederam.

Lembro de uma vela ao lado da cama,
a qual nunca imaginei que fosse apagar.
O brilho da vela, era como de quem ama.
Quem a apagou, penso, queria me cegar.

O seu calor também aquecia minh'alma,
ainda que singela a chama parecesse...
enchia meu peito e meus olhos de calma,
embora eu nem sempre percebesse.

Há tempos estou aqui sozinho no escuro.
Coloco-me muitas vezes entre prantos...
e sei que nunca pedi por isso, eu juro.
Gritos e sussuros compõem meus cantos.

Sinto apenas que estou longe de casa...
criaturas da noite aproximam-se de mim.
Meu anjo foi embora num bater de asa,
não sei quem estará comigo perto do fim.

Não percebo sinais nem ouço tua voz...
não existe rebanho, nem o teu cajado,
apenas o eterno frio, meu cruel algoz.
Rezo e suplico, e tu permaneces calado.

Se eu tivesse forças, seria teu inimigo...
faria com que provasse o meu castigo.
Te traria comigo para meu quarto frio,
pois espaço sobra, nesse imenso vazio...

Hugo Roberto Bher
# O Poeta do Escuro

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Os Espelhos da Alma



A escuridão em seu quarto acusava alta madrugada, ainda longe de ser agraciada com a claridade dos raios solares da manhã.

Luiza sentou-se na cama, esfregando os olhos com as mãos, como se quisesse poder ver algo em meio ao breu.

Assim como a visão acostuma-se com o escuro, onde nossos olhos buscam resquícios de luz para poder adaptar-se ao ambiente, percebera que seu quarto estava um tanto quanto diferente de como se lembrava. Olhou para sua cama e viu seu corpo repousando no leito, percebendo logo, que aquilo tudo se tratara de um sonho.

Parecia mais uma experiência extracorpórea, um sonho que se aproximava tanto da realidade que se podia jurar realmente estar acontecendo. Já não era novidade para ela, uma garota um tanto quanto introspectiva, que dormia e acordava imersa em seus mais profundos anseios e angústias.

Resolveu não tentar dormir, em entregar-se àquela experiência.

Percebeu que no lugar dos seus móveis e afins, estavam vários espelhos de tamanho e formas variadas. Eram grandes, pequenos, belos e alguns assustadores.

Levantou-se da cama, e notou uma luminosidade indicando um dos espelhos dispostos, e caminhou em direção a ele.

Olhou para dentro daquilo que mais parecia um portal para outra dimensão, e percebeu a sua imagem, porém com um semblante muito mais sereno, com seu rosto mais belo e aspecto muito saudável.

Estranhou o fato do reflexo não mover-se exatamente como se movia, e assim como se começasse um diálogo de maneira tímida com alguém, perguntou:

- Quem tu és?

- Ora, não me reconheces? – respondeu de imediato o referido reflexo.

- Tu pareces comigo, mas sei que tu não és meu reflexo.

- Eu sou a tua fé, criança, sou parte tua, e tu és meu todo.

- Então, se és parte minha, que fazes tu, minha fé? – perguntou curiosa à imagem no espelho.

- Sou aquela que te dá forças, criança minha. Que te faz acreditar no que não podes ver, naquilo que ainda está aquém do teu entendimento.

- Estou no âmago do teu ser, bem no fundo dos teus olhos...vivo nos limites da tua alma.

- Que lindo! Eu nem imaginava ter algo vivo assim em mim. – suspirou maravilhada.

- Minha fé, tu ficarás sempre comigo?

- Filha minha, serei teus pés se cansares de andar. Carregarei-te em meus ombros se precisares, mas não olhai demais para outros espelhos que conhecerás em breve.

- Sou espada forjada no fogo dos céus para lutar contigo, mas depende de ti manter-me empunhada.

Vá agora, e guarda minhas palavras.

Luiza ensaiou alguns passos e parou em frente a outro espelho, com uma aparência um pouco mais antiga, de moldura envolvida por algo que parecia ser cera de velas já queimadas há muito tempo.

Olhou para uma imagem dela mesma encolhida no canto do espelho, com o rosto coberto pelas mãos.

Bateu com as pontas dos dedos no espelho, ao que o reflexo revelou sua face, assustando de certa maneira nossa protagonista.

Seu corpo era exatamente igual, mas sua face representava um profundo pavor, desespero. Como alguém que se esconde após presenciar algo terrivelmente assustador.

Luiza tomou coragem e encheu seus pulmões de ar. Postou-se ereta e começou a conversa, receosa com as possíveis reações daquele bizarro reflexo.

- Quem tu és?

- Fala baixo, que te digo quem sou. – respondeu quase sem voz o reflexo no espelho.

- Quem tu és? – Insistiu Luiza.

- Sou teu medo. Escondo-me dentro de ti.

- O que me fazes meu medo?

- Sussurro em teus ouvidos, e às vezes grito. Não reconheces minha voz?

- Sim meu medo. Agora lembro. Tu me fazes muitas vezes desistir de muitas coisas, e quando ignoro tua vez sinto que ando no escuro. Por que me fazes mal?

- Mal? Tu és filha minha, amada. Eu apenas cuido de ti.

- O mundo é cruel, meu amor, e apenas tento deixar-te perto de meus braços. Estou entre seus espelhos mais velhos, e estarei aqui quando muitos quebrarem, porque escondo-me sempre, fillha.

- Mas se eu te ouço demais, nenhum passo eu conseguirei dar em direção ao próximo espelho.

- Mesmo te amando tanto filha, em verdade digo-te que não me ouça sempre. Estarei sempre falando, mas prometo que gritarei somente quando estiveres arriscando-te demais.

- Ouça-me, mas eu entenderei se não me ouvires às vezes. Continuarei sempre te amando. – Disse o reflexo tornando a recolher-se em sua posição amedrontada e defensiva.

Vá, mas cuidado. CUIDADO.

Uma sensação de angústia ainda tomava conta da menina.

Por um momento pensou em correr para sua cama, para tentar acordar daquele estranho sonho.

Porém logo pensou que essa sensação seria influência do espelho onde habitava o seu medo, e olhando um pouco a frente, vislumbrou um reflexo que lhe chamava.

Este refletia sua imagem quase fiel, e movimenta-se rápido, como estivesse tomado por certa hiperatividade.

Curiosa e já familiarizada com aquela inusitada situação, posicionou-se exatamente em frente à moldura e perguntou:

- Quem tu és?

- Sou tudo aquilo de que precisas. Sou jovem e nada temo. Eis que sou tua Coragem minha pequena. – Respondeu a imagem entusiasmada.

- Como parece animada. O que fazes a mim, minha coragem? Indagou Luiza.

- Sou aquela que te empurra quando ouves teu medo. – Respondeu o reflexo, sorrindo.

- Reconheço tua voz, lembro-me de ouví-la em alguns momentos da minha vida.

- Sim. Por vezes tenho que gritar muito alto, para que minha voz vá mais longe que a voz do medo teu. Como grita aquela assustada criatura. – Disse expressando desdenho em sua face.

- Mas minha coragem, lembro-me de certa ocasião, onde eu estava prestes a atravessar uma ponte de madeira velha, e tu apenas dizia-me: Siga, Siga.

- Pensei estar ouvindo a voz de um demônio querendo que eu caísse de uma altura fatal.

- Nada disso minha pequena. Nada deves temer se estou contigo. Eu até te empurraria pela ponte se tivesse dado-me ouvidos.

Mas agora assusta-me tua palestra, pois nesta ocasião, quando decidi tomar o caminho mais longo desviando-me da ponte, uma outra criança resolveu atravessá-la e acabou sucumbindo aos braços da morte quando a ponte se desfez. – Inquiriu Luiza

O reflexo da coragem enrubesceu e aquietou-se com a narração de Luiza. Pôs-se em um canto da moldura e baixou a cabeça.

Apontou para a menina a próxima direção e disse:

Vá pequena. Estou contigo, sempre e sempre.

Voltando a empreender sua caminhada em meio aos espelhos, Luiza estava agora um tanto quanto confusa.

Estava ficando difícil entender a maneira correta de viver e enfrentar os caminhos que a vida lhe empunha, visto que possuía tantas facetas contraditórias dentro de si mesma.

Ficou intrigada ao ver um espelho coberto por dentro, com um pano escuro.

Aproximou-se e tocou o espelho com a ponta dos dedos, ao que uma voz, tímida e assustada gritou:

- Vá embora. Não há nada aqui para você.

Luiza insistiu e tornou a bater, e percebeu uma voz diferente dentro do mesmo espelho, que repetia baixinho:

- Vá menina, não há nada aqui para se ver.

- Mas eu insisto...quero apenas ver quem está aí. – Insistiu Luiza, continuando a bater, até que o pano que cobria o espelho internamente caiu, e revelou dois reflexos, abraçados. Um deles tinha um semblante que aparentava pânico, horror, ao que o outro olhava apenas para baixo, e nada falava.

- Quem sois, e por que estão assim, juntas?

- Eu sou tua Vergonha, e está que não quer falar é tua Covardia. Estamos juntas porque nos aceitamos, e não ameaçamos uma à outra.

- Mas parece-me tão triste, viverem assim.

- Não minha menina – disse a vergonha – Não precisamos nos expor se podemos ficar assim, escondidas do mundo. Nós sabemos do que somos capazes não é mesmo? Aqui dentro do meu mundo, posso fazer tanta coisa, sem que me critiquem. Assim vivo melhor.

- Queres dizer-me que preciso envergonhar-me de quem sou?

A covardia adianta-se e explica:

- Filha, olhe para você. Olhe para teu rosto belo e seu corpo frágil.

- Talvez tu não saibas quanto mal existe no mundo. Apenas não quero ver-te machucada...porque tu és minha filha.

Em trôpegos passos, com a cabeça baixa e um tanto aborrecida, a menina continuou rumo ao próximo espelho.

Viu uma moldura um tanto quanto diferente das outras, bem peculiar. Era envolvida em uma espécie de couro, e as laterais eram ostentadas por duas grandes espadas, que lembravam aquelas estórias medievais épicas.

Notou seu próprio reflexo movimentando-se com maestria, com vestimentas das antigas Amazonas, guerreiras que travavam batalhas e corriam sobre o lombo de cavalos.

- Quem tu és?

- Quando o vento bate forte, e queres te derrubar, estou contigo. – Repondeu o reflexo, imponente.

- Quando jogam-te pedras, querendo ferir-te, sou eu quem faz de pedra também teu peito, para que não caia minha guerreira, e se caso caíres, dar-te-ei o cabo da minha espada para levantar-te.

- Eu sou tua Força.

Os olhos de Luiza brilharam. Sentiu-se invencível neste momento.

- Então se estás comigo, nada preciso temer não é mesmo?

- Minha pequena guerreira, meus ancestrais derrubaram anjos e demônios. Minhas raízes estão entre os céus e a Terra. Derrubarei quem estiver em minha frente, se em mim acreditares, mas a escolhe sempre será tua, e não minha.

- Existem vasos que quando quebrados, não podem jamais ser consertados.

Pense Nisso.

Com uma postura mais ereta, Luiza seguia sua pequena grande jornada entre o ambiente repleto de espelhos.

O próximo espelho em seu caminho era deveras intrigante e assustador.

A moldura de madeira rústica, aparentemente sofria as ações do tempo; como se tivesse sido por muito tempo maltratado e desprezado.

Pelas ranhuras da moldura, corria um líquido vermelho viscoso. Sim era Sangue.

Luiza ficou com medo de olhar para o reflexo, mas já era tarde em frente ao espelho se punha a observar.

A imagem no espelho aparentava estar tão surrada quanto à moldura; magra e aborrecida, com todo seu corpo transparecendo enorme sofrimento.

Seus olhos também choravam sangue.

Suas mãos sangravam por entre os enormes calos que saltavam aos olhos.

Seus cabelos sujos e completamente emaranhados, em contraste com sua pele de coloração pálida fazia-a parecer ainda mais doente.

Luiza compadeceu-se do tal reflexo, que até tentou transpor o espelho para ajudá-la, ação que foi interrompida pela imagem, dizendo com voz doce:

- Afasta-te criança.

Surpresa nossa menina afastou-se alguns centímetros do espelho, questionando o reflexo.

- Por quê não desejas que ajude-te?

- Apenas não quero contaminar-te com minhas cicatrizes abertas, nem sujar teu belo vestido criança. – Respondeu a imagem, calma.

- Quem tu és? – perguntou a menina.

- Eu sou a tua Dor, criança.

Luiza calou-se por um tempo, como quem pensasse nas próximas palavras, e num ímpeto de raiva acusou:

- Por que vive em mim? Não quero algo assim dentro de mim. Não quero sentir dor nem ser como você.

A imagem no espelho pôs-se de joelhos, e dos seus olhos caíam mais lágrimas de sangue, e entre soluços de choro falou à menina:

- Vivo em ti minha filha, para tomar toda sua dor.

- Minha aparência terrível é por tantas dores que suportei até hoje...tomo para mim o que não posso suportar que sintas.

- Minhas lágrimas de sangue lavam o alívio depois das dores que tu sentes; choro as lágrimas de sofrimento para que não chorem os olhos teus.

- Apenas quando a dor é imensa, quando não posso suportar sozinha é que isso transparece no teu rosto.

- As minhas costas, filha, estão machucadas pelas pedras que eventualmente iriam à sua direção, mas peço perdão, meu amor, se alguma passar por meu corpo pequeno e ainda acerta-te, machucando teu coração.

- Se porventura eu gritar muito alto, procure ignorar-me, para que não sintas o que sinto.

Luiza comoveu-se tanto com as palavras da Dor, que pôs-se também a chorar; quando as mãos do reflexo transpassaram o espelho e seguraram suas mãos.

Logo a menina acalmou-se e a imagem no espelho, em pranto soluçante apontou à Luiza a direção dizendo:

Vá filha, TE AMO.

Um tanto desconcertada, Luiza continuou caminhando, olhando para os pés em passos lentos e curtos.

Começara a perceber sua vida sob o aspecto dos espelhos.

Pensou que ela era todo um universo dentro do mundo, e que todas as pessoas certamente tinham seus próprios espelhos, e que eram influenciadas por eles de maneira diferente.

Olhou em sua volta e sentou-se no chão, imersa em seus devaneios.

Começou a perceber uma música que vinha de um espelho logo a sua frente.

A música tocava em sua alma, e parecia arrepiar todo o seu corpo, provocando várias sensações ao mesmo tempo.

O espelho cujo qual era a origem da música, era de moldura branca, e dela emanava certa luz verde, como uma aura que envolvia todo o espelho, que era sem dúvida, o mais belo de todos.

Indo em direção a ele, passou em frente a um corredor muito escuro tomado por espelhos à sua volta, mas estava hipnotizada pela música e foi seguindo em frente.

Um dos espelhos negros gritava: - Eu ODEIO este lugar, ODEIO tudo e a todos...

Outro guardava um reflexo sentado em peças de ouro e coberto de jóias, que dizia: - Não se aproxime, isso é TUDO MEU...TUDO MEU.

Quando estava de frente ao espelho belo, com aura esverdeada, viu sua própria imagem um pouco mais velha, como se pudesse ver a si mesmo em alguns anos.

-Quem és tu? – perguntou.

- Sou aquela que fica, quando tudo se vai. Sou a personificação das virtudes e em tudo estou; dentro de você e a sua volta, anjo meu.

- Sou a mão que acalma-te quando és assolada pelo mais profundo desespero...

- Sou o anjo que aponta o caminho quando te sentes perdida; e quando tua alma sente frio, o calor dos céus sopro em teu rosto.

- Eu sou teu colo e teu seio e ainda estarei aqui pra te levar comigo, quando tudo mais deixar de existir para você.

- Eu sou a Esperança...

Lágrimas caíam neste momento dos olhos de Luiza.

- Nosso tempo está acabando e ainda existe alguém que precisas conhecer...

- Vá agora e quando voltar, não olhe para os espelhos negros atrás de você, porque estes tu ainda não estás preparada para conhecer.

E assim a Esperança virou-se de lado, dando passagem para Luiza, e logo em frente a alguns passos de distância, parou em frente de uma entidade de cores variadas, tantas quantas nem podia distinguir.

Sentiu uma paz imensa à medida que aproximava-se daquela forma de luz e cores.
Como a mais humilde das criaturas, Luiza dirigia-se ao ser tão belo a sua frente.

- Não sei o que devo perguntar.

E o ser com voz ecoante...

- Pergunte-me quem sou

- Quem tu és – perguntou Luiza.

- Sou tudo que mereces minha filha, se encontrares e seguires o teu caminho.

- Sou teus sonhos, tua felicidade, tua paz e tua plenitude e o amor em ti.

- Sou o abrigo do teu espírito, o manto da tua alma.

Luiza apenas conseguia chorar de emoção e nada conseguia falar.

Lentamente levantou e aproximou-se daquele que lhe falava, quando surpreende-se com a reação daquela pura forma de energia brilhante.

- Por quê não posso tocar-te? – Perguntou a menina.

- Ainda é cedo filha.

- Você recebeu um grande presente hoje, podendo conhecer alguns espelhos de sua alma, mas seu caminho ainda é longo, para que eu te deixe tocar-me.

- Eu não entendo.

- Basta que você reflita um pouco, e certamente precisarás ver seus espelhos muitas outras vezes antes de chegar até mim, mas agora te darei outro presente, que deverás levar sempre contigo.

O Ser de Luz dissolveu-se e em seu lugar estava um pequeno espelho.

Luiza apenas ouvia a voz que parecia estar em todos os lugares, e não mais via a entidade.

Por fim, a voz dizia:

Leve este presente contigo...

O que representa este presente?

Este é o espelho do DISCERNIMENTO, e há de tê-lo junto a ti quando novamente, encontrar-te com teus espelhos.

Aos poucos Luiza foi abrindo os olhos.

Olhou pela janela e percebeu que a noite toda havia passado.
Lembrava-se perfeitamente daquele sonho misterioso, e a partir daquele noite, sua vida mudara para sempre.

Hugo Roberto Bher.

#O Poeta do Escuro

P.S. Uma Agradecimento à Ana Luiza por várias conversas que inspiraram este texto.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Vídeo Poema - As Coisas e Eu

quarta-feira, 15 de junho de 2011

O Homem Vestido de Preto



Quando era menino, nunca conhecera a felicidade de fato.

Era como se alguém roubasse todos os seus sonhos de criança, como se apagassem todos os seus esboços de sorrisos.

E quando não se sabe o que é sentir-se feliz, adapta-se a isso. Não existindo mais nada, acostuma-se com a melancolia e tristeza.

Apenas não entendia as marcas de sorriso no rosto das pessoas. Para ele, era como se o mundo inteiro estivesse atuando numa grande peça de teatro, como palhaços sorrindo para agradar o público a sua volta.

Ao longo do tempo, começou a se perguntar por que se sentia daquela maneira. Ainda que a vida fosse difícil, entendia que pessoas com mais dificuldades eram, aparentemente, mais felizes.

Porém, era como ele fosse pressionado por alguma força invisível aos olhos, a ser mais que homem, a ser muito mais do que sentia-se capaz algum dia ser.

Certa noite, em profundo estado de meditação, sentiu uma presença sombria e fria ao seu lado. Abriu os olhos e viu um Homem vestido de negro, com o rosto escondido nas sombras tão negras quanto seu traje.

Mesmo sem poder ver seu rosto, sabia que o homem sorria, e não sentia medo. Parecia que não estava mais sozinho.

- Quem é você? Por que sinto que não me és estranho? – Perguntou o menino.

- Sou aquele que te acompanha, tu não precisas saber mais. – Respondia o Homem, sem alterações no tom da voz.

- Por que sinto-me tão triste? – Insistia o menino, ansioso.

- Porque levo o que há de bom em ti comigo, e não devolverei nunca mais.

- Por que tu fazes isso, espectro sombrio? Que mal fiz-te?

- Em teu caminho, ainda não é tempo de encontrares a paz.

- Por que faz-me mal?

- O mal às vezes é o bem, com disfarces de dores e sofrimento. A escuridão é a ausência de luz, para que acendas tu mesmo as velas do candelabro.

- Como faço para que te afastes de mim, sombra?

- Quando encontrares teu caminho, não me verá nunca mais.

O Homem de preto foi afastando-se, quando de repente, voltou os olhos para o menino e disse, como se não quisesse ser interrompido:

- Lágrimas são fraquezas que tu não podes dar-se o luxo de demonstrar.

- O medo constante te servirá para mostrar o quanto estás saindo de onde sentes conforto...o medo também é o caminho.

- A Águia que voa alto, é predadora perspicaz, mas no seu ninho, é vulnerável. Nunca pare de voar.

- Quando sente dor imensa, teu corpo se acostuma, mais forte ficarás.

- Sentimentos são as espadas que pessoas bem intencionadas usam para ferir umas às outras.

- Estou indo menino, e não me chame nunca mais.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

O Poeta que Não Ama

Das coisas de amor nada sei.
Só entendo daquilo que dói,
pois o amor é nobre, pensei,
e tudo que sinto me destrói.

Imaginei ter amado um dia,
quando vivia nos braços teus;
Em que sempre teus olhos via,
refletindo paz nos olhos meus.

Deixou-me sem dizer Adeus.
Mas não permito-me chorar.
As lágrimas que não podem rolar,
gritam silenciosas no breu.

E assim dentro do meu peito,
como ácido queimam e corroem;
é assim que as dores me constroem,
criando o desumano perfeito.

Do amor, tenho as lembranças.
A saudade é minha dança.
Nostalgia se faz meu manto.
Lágrimas não choro, porquanto,
é de sangue o meu pranto.

Sou poeta que não ama,
Sou do tamanho do vazio.
Mais gelado que o frio,
"maquiavélico" febril...
sou o verso que não clama.


Hugo Roberto Bher